A Compreensão e o Silêncio
Quando é que se compreende algo? Quando ocorre a compreensão? Não sei se você notou, mas há compreensão quando a mente está em extremo silêncio, ainda que apenas por um segundo. Há o lampejo da compreensão quando não ocorre verbalização do pensamento. Apenas experimente e verá por si mesmo que acontece um lampejo de compreensão, uma percepção instantânea, quando a mente está muito quieta, quando o pensamento está ausente, quando ela não está sobrecarregada com seus ruídos. Desse modo, a compreensão de qualquer coisa — de um quadro moderno, uma criança, sua esposa, seu vizinho, da verdade que há em todas as coisas — só pode vir quando a mente está muito quieta. Mas tal quietude não pode ser cultivada, porque, quando se cultiva uma mente quieta, ela não é uma mente silenciosa, é uma mente morta.
Para a compreensão, é essencial uma mente quieta, silenciosa, algo bastante óbvio para aqueles que vivenciaram isso. Quanto mais você se interessa por algo, quanto maior a intenção em compreender, mais simples, clara e livre a mente se torna. Assim, a verbalização cessa. Afinal, pensamento é palavra, e é a palavra que interfere. É a tela das palavras, ou seja, a memória, que se interpõe entre o desafio e a resposta. É a palavra que responde ao desafio, o que chamamos de intelecção. Assim, a mente que está tagarelando, que está verbalizando, não pode compreender a verdade — a verdade nas relações, não uma verdade abstrata. Não há verdade abstrata. Mas é algo muito sutil, de uma sutileza difícil de acompanhar. Ela não é abstrata. Vem tão rapidamente, de maneira tão obscura, que não pode ser capturada pela mente. Como um ladrão na noite, ela chega às escuras, quando não se está preparado para recebê-la. Seu chamado é simplesmente um convite à sua ganância. Assim, uma mente que está presa na rede das palavras não pode compreender a verdade.
A primeira coisa a fazer, se posso lhe sugerir algo, é descobrir por que você pensa de certo modo e por que sente de determinada maneira. Não tente alterar isso, não tente analisar seus pensamentos e suas emoções; mas torne-se consciente de por que pensa em determinado ritmo e a partir de qual motivação você age. Embora possa descobrir o motivo por meio da análise, embora seja possível descobrir algo por meio de uma pesquisa, isso não será real; será verdadeiro apenas quando você estiver plenamente atento no momento em que ocorrem seu pensamento e sua emoção. Então perceberá sua extraordinária sutileza, sua aguda delicadeza.
Enquanto existir um “devo” e um “não devo”, nessa compulsão, você nunca descobrirá esse divagar acelerado do pensamento e da emoção. Tenho certeza de que você foi criado na escola do “deve” e do “não deve” e, portanto, teve seu pensamento e sentimentos deturpados. Você tem sido aprisionado e mutilado por sistemas, métodos e mestres. Então, abandone todos aqueles “devo” e “não devo”. Isso não significa entregar-se à permissividade, mas tornar-se plenamente atento a uma mente que está sempre dizendo “devo” e “não devo”. E assim, de modo semelhante a uma flor que desabrocha pela manhã, a inteligência se manifesta, está ali, operando e gerando compreensão.
Trecho do livro O que você está fazendo com a sua vida – J. Krishnamurti
