Despertar – Parte II

O mais lindo sobre o despertar é que, quando você deixa de agir conforme o seu condicionamento, o senso de eu, que estava vivendo esta vida, não existe mais. A maioria das pessoas está familiarizada com o senso de um eu vivendo esta vida. Mas quando se vê além disso, a experiência é a de que o que realmente dirige e opera esta vida é o amor, e esse mesmo amor está em todos nós, continuamente. Você vivenciou instantes em sua vida − estivesse consciente deles ou não − em que momentaneamente esqueceu o eu com o qual se identificava. Isso pode ocorrer de modo espontâneo, diante de uma bela paisagem, ou a partir do esquecimento egoico.

Em geral, as pessoas desconsideram tais momentos. Após vivenciar o “lindo instante”, você reconstitui seu senso familiar de identidade. Mas, na verdade, essas ocasiões são como pequenas aberturas por meio das quais a verdade é experienciada. Se começar a observá-las com atenção, irá notá-las. De súbito, a mente para de pensar na própria história. Você pode notar que sua identidade separada ou senso de eu simplesmente faz uma pausa, e aquilo que você verdadeiramente é não desaparece. Então você se pergunta, “O que é o eu verdadeiro? Se minha identidade pode fazer uma pausa e eu não desapareço, então, o que sou?” Ou melhor, “O que sou quando desapareço?”.

Na maior parte das vezes, a mente fica ativada em resposta à pergunta, “O que sou eu?”. Ela começa a pensar sobre a pergunta até que a verdadeira inteligência a interrompe novamente e diz, “Espere um momento, isso é apenas mais um pensamento”. Então, pode haver uma lacuna de silêncio entre os pensamentos, e se você estiver bem presente nessa lacuna, deixa de agir a partir de sua identidade familiar. Assim que a identidade mergulha na lacuna, você não se sente mais presente. Não ser alguém é normalmente tão desconcertante para a mente que ela começa a preencher a lacuna bem depressa. “Como posso não ser alguém?” Mas preenchê-la com um alguém não faz sentido. Se realmente quiser saber quem você é, apenas experiencie a lacuna, vivencie a abertura e
deixe-a florescer internamente. Não existe melhor maneira de descobrir quem você é.

Existe uma linda parábola da Bíblia que diz ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Tentar agarrar-se às suas identidades, mesmo que sejam as mais espirituais, as mais sagradas, é como tentar empurrar um camelo pelo buraco de uma agulha. São grosseiras demais, grandes demais, falsas demais, fabricadas demais para atingir a verdade. Mas existe algo capaz de passar pelo buraco da menor das agulhas e chegar ao céu: o espaço, seu próprio vazio. Nenhum de nós pode levar consigo um único fragmento de identidade autocentrada.

TRECHO DO LIVRO SUA ESSÊNCIA: A DANÇA DO VAZIO – ADYASHANTI

Ver também: Despertar – Parte I