Despertar
Quando realmente começamos a olhar para quem pensamos ser, tornamo-nos muito propensos à graça. Começamos a ver que, embora possamos ter vários pensamentos, crenças e identidades – individual e coletivamente –, eles não nos dizem quem somos. Um mistério se apresenta: quando realmente olhamos para nós, de maneira clara e cuidadosa, surpreendemo-nos ao constatar como nós, humanos, nos definimos totalmente pelo conteúdo de nossa mente, sentimentos e história.
Várias formas de espiritualidade tentam se livrar de pensamentos, sentimentos e memórias a fim de deixar a mente vazia, como se isso fosse um estado desejável ou espiritual. Mas ter a mente vazia não é necessariamente sábio. Ao contrário, é mais proveitoso olhar através dos pensamentos e reconhecer que um pensamento é apenas um pensamento, uma crença, uma memória. Então podemos parar de vincular consciência ou espírito aos nossos pensamentos e estados mentais.
Quanto mais esse espírito ou consciência começa a se experimentar não como um pensamento, uma ideia ou uma crença, mas como uma simples presença de percepção consciente, mais esse despertar é refletido em todos os lugares. Quanto mais despertamos de corpos, mentes e identidades, mais percebemos que corpos e mentes são, na verdade, apenas manifestações desse mesmo espírito, dessa mesma presença. Quanto mais compreendemos que quem somos está totalmente fora do tempo, do mundo e de tudo que acontece, mais entendemos que essa mesma presença é o mundo – tudo que está acontecendo e tudo que existe. É como os dois lados de uma moeda.
A maior barreira para o despertar é a crença de que se trata de algo raro. Quando essa barreira cai, ou, pelo menos, quando você passa a questionar a própria crença de que o despertar é algo difícil de atingir, tudo se torna disponível de imediato. Como o despertar é tudo o que existe, não pode ser raro e difícil de ser alcançado, a menos que insistamos que assim seja. A base desse conhecimento não é teórica, é vivencial.
O mais lindo sobre o despertar é que, quando você deixa de agir conforme o seu condicionamento, o senso de eu, que estava vivendo esta vida, não existe mais. A maioria das pessoas está familiarizada com o senso de um eu vivendo esta vida. Mas quando se vê além disso, a experiência é a de que o que realmente dirige e opera esta vida é o amor, e esse mesmo amor está em todos nós, continuamente.
TRECHO DO LIVRO SUA ESSÊNCIA: A DANÇA DO VAZIO – ADYASHANTI
